Para onde foram meus anos que esta mulher leva consigo? Deitada, imóvel, fronte leve e olhar enigmático, pergunto a ela que não me ouve sobre um quarto com brinquedos, a primeira palavra, o primeiro medo e o primeiro abraço. Observo detidamente essas mãos pálidas e percorro seus sulcos de conhecimento inalcançável, tentando escutar o som de um sangue em ritmo constante que me indique o caminho por onde minha vida deve percorrer quando levantar o olhar. O silêncio que vem dessa atenção concentrada é entrecortado pelo ressonar de um ar distante e forte que nos rodeia e faz gotejar a mim, não a ela. Plácida, seu corpo me traz sons de festas longínquas traduzidas em expectativas de luzes e gostos dulcíssimos de amanhã. Se de seus lábios a voz altissonante não prosperou, a altivez do corpo retilíneo comunicava indagações não definidas de por quês. Sempre estiveram ali, as perguntas. Só me pergunto se eram delas ou minhas, que incrustava em seu corpo meus anseios mais recônditos, de um tempo imutável. De seus cabelos recebia os reflexos de uma consciência impenetrável. Em vão tentava imbricar-me neles na busca de colher pensamentos, ainda que monólogos inauditos. Quantas e quantas vezes penetrei, de forma sorrateira e silenciosa, na noite atemporal de seu sono, na esperança de construir novas pontes que me permitissem chegar até seu passado, seu futuro ou seu presente. Sem guia, sem mapa, sem precedentes, tateei vagamente esse universo tão familiar e que há anos me retém em fios de ouro bordando tecidos de lembranças sem fim. Uma urdidura complicada e cheia de pontas me conduz a caminhos que conheço e não reconheço. Sei que nesse traçado minha vida foi disposta e nenhum fio pode desmanchar-se sob o risco de enviar-me a mim a um perpétuo degredo. Aferro-me a detectar a primeira bordadura, mas não tenho êxito. Creio que só ela detém esse poder sobre meu encantamento, fazendo-me refém de seu tempo e de suas vontades, ainda que não expressas. Poderosa, essa mulher me retém em um mundo só nosso. E o dia vai declinando, a hora tantas vezes anunciada e prorrogada encontra seu espaço e se insinua entre nós. Não me espanto. Não há alternativa e vamos nos dizendo adeus. Ou até logo. Não há outro caminho, não há outro momento. Aceito. É ela, e não é. Sou eu, e não serei mais. Fecho os olhos e sei, e sinto, e escuto. Sons de crianças brincando.
JABUTICABA E OUTROS QUINTAIS
Poemas e ideias em água viva
segunda-feira, 11 de setembro de 2023
domingo, 17 de novembro de 2019
DESCONCERTO
Eu e meus
desconcertos
Desassossegos
de tantas
Pessoas
Uma lassidão
sempre a espera
de amanhã
desconcertos
Desassossegos
de tantas
Pessoas
Uma lassidão
sempre a espera
de amanhã
ENCAIXOTADA
Ontem quiseram prender-me
Mas eu não cabia
na caixa
Então, intrigados, iniciaram
um conciliábulo, me medindo,
me inspecionando, me revirando
dos pés à cabeça
- É a orelha que está sobrando
e não cabe na caixa.
Afirma o douto senhor
- Não, é o dedo mediano,
comprido demais, desproporcional.
Replica o insigne de
anel no dedo.
- Pois eu digo que não é nessa
parte o problema:
é a cabeça, grande demais,
e não adianta cortar o cabelo,
continua em excesso.
(acrescenta o terceiro).
Olhos e olhos, já um tanto
irritados, me lançavam
chispas de exasperação:
Por que não cabe na caixa?
Por que não cabe na caixa?
E nos acaba esse problema?
Era a pergunta unânime
o desejo unânime.
E eu ali, sem caber.
Ora era o dedo, ora o nariz,
era o pé, era a cabeça,
até o olho (cílios enormes!)
era culpado de um conjunto
que não cabe na caixa.
E de um canto se levanta
um deles, até então calado:
- cortem-lhe as asas!
Facilmente caberá
na caixa.
Mas a cada corte que
me faziam, asas nasciam
em outra parte, dominando
meu corpo.
E a caixa
sempre inexata,
ali, ao lado,
ameaçadora,
com suas paredes,
seus encaixes,
estanque objeto
feito por mãos
humanas
sem olhos
sem nome
sem corpo
Como alguém pode
ousar existir
sem caber
na caixa?
Era o que se sussurrava,
se discutia,
e alguns, mais exaltados,
gritavam exasperados.
Primeiro tentaram
colocando a perna direita,
em seguida o braço esquerdo,
não erguido, mas caído,
atrás das costas.
Depois era preciso ajoelhar,
cabeça caída para frente,
pés e mãos unidos, em
uma mesma direção.
De outra feita que
eu entrasse de ré,
agora sim (diziam)
a caixa servirá
perfeitamente.
E sempre havia algo
em mim que sobrava,
ressaltava, cobrava
espaço exterior,
e a caixa
não fechava,
não servia.
Não me largam, não
me esquecem,
se revezam
dia a dia
na atenção de garantir
uma caixa
para cada um
A que me destinaram
carregam
para que me
acompanhe
a cada passo
que dou.
Não posso dizer
que seja feia,
a caixa,
não posso dizer
que não é confortável,
a caixa,
só posso dizer que
não me cabe,
a caixa
que construíram
para mim.
Exasperados, me gritam:
Como não cabe?!
Como não cabe?!
Mas você não estava junto
quando começaram a construir
a caixa?
Não foi você quem
trouxe essa tábua
que cobre um dos lados
da caixa?
Não foi você que
misturou as tintas
que enfeitam
e recobrem
essa caixa
totalmente personalizada
em sua base geral?
Nada disso posso negar
Como não posso negar
a evidência de que
não caibo
na caixa
Essa caixa
feita a tantas mãos...
Mas eu não cabia
na caixa
Então, intrigados, iniciaram
um conciliábulo, me medindo,
me inspecionando, me revirando
dos pés à cabeça
- É a orelha que está sobrando
e não cabe na caixa.
Afirma o douto senhor
- Não, é o dedo mediano,
comprido demais, desproporcional.
Replica o insigne de
anel no dedo.
- Pois eu digo que não é nessa
parte o problema:
é a cabeça, grande demais,
e não adianta cortar o cabelo,
continua em excesso.
(acrescenta o terceiro).
Olhos e olhos, já um tanto
irritados, me lançavam
chispas de exasperação:
Por que não cabe na caixa?
Por que não cabe na caixa?
E nos acaba esse problema?
Era a pergunta unânime
o desejo unânime.
E eu ali, sem caber.
Ora era o dedo, ora o nariz,
era o pé, era a cabeça,
até o olho (cílios enormes!)
era culpado de um conjunto
que não cabe na caixa.
E de um canto se levanta
um deles, até então calado:
- cortem-lhe as asas!
Facilmente caberá
na caixa.
Mas a cada corte que
me faziam, asas nasciam
em outra parte, dominando
meu corpo.
E a caixa
sempre inexata,
ali, ao lado,
ameaçadora,
com suas paredes,
seus encaixes,
estanque objeto
feito por mãos
humanas
sem olhos
sem nome
sem corpo
Como alguém pode
ousar existir
sem caber
na caixa?
Era o que se sussurrava,
se discutia,
e alguns, mais exaltados,
gritavam exasperados.
Primeiro tentaram
colocando a perna direita,
em seguida o braço esquerdo,
não erguido, mas caído,
atrás das costas.
Depois era preciso ajoelhar,
cabeça caída para frente,
pés e mãos unidos, em
uma mesma direção.
De outra feita que
eu entrasse de ré,
agora sim (diziam)
a caixa servirá
perfeitamente.
E sempre havia algo
em mim que sobrava,
ressaltava, cobrava
espaço exterior,
e a caixa
não fechava,
não servia.
Não me largam, não
me esquecem,
se revezam
dia a dia
na atenção de garantir
uma caixa
para cada um
A que me destinaram
carregam
para que me
acompanhe
a cada passo
que dou.
Não posso dizer
que seja feia,
a caixa,
não posso dizer
que não é confortável,
a caixa,
só posso dizer que
não me cabe,
a caixa
que construíram
para mim.
Exasperados, me gritam:
Como não cabe?!
Como não cabe?!
Mas você não estava junto
quando começaram a construir
a caixa?
Não foi você quem
trouxe essa tábua
que cobre um dos lados
da caixa?
Não foi você que
misturou as tintas
que enfeitam
e recobrem
essa caixa
totalmente personalizada
em sua base geral?
Nada disso posso negar
Como não posso negar
a evidência de que
não caibo
na caixa
Essa caixa
feita a tantas mãos...
AUSÊNCIA
Quando as minhas memórias e as memórias de mim não existirem mais, ainda restará um tempo, um sol sobre a terra, e esse ar imóvel que as vezes sacoleja algum som nas árvores, nas pequenas rosas do vento, nos mistérios e no nada do mundo que nos rodeia. E eu acredito que será assim, um dia assim, como hoje, que será o amanhã de todos os meus amanhãs, de todos os amanhãs. Porque quando também não existirem mais os amanhãs, o tempo será outro, e outro ar imóvel de eternidade irá abraçar o mundo que nos consome. Mas hoje é esse tempo cíclico, linear e imutável que me inunda, com seu sol acalentador de um verão estático. Os sons e os coloridos, tão reais quanto incorpóreos, traduzem sensações indizíveis e eternas. Porque estavam aí, desde sempre. Infantil porque sempre com gosto de um ontem, esperança de um porvir e certeza de um nada.
Os turbilhões podem trazer inundações, a visão pode se tornar esmaecida pela fadiga, o tempo pode passar contado em cronômetros, as mãos podem se fechar pela ausência de respiração leve.
Mas no fim, esse será o destino.
Mas no fim, esse será o destino.
domingo, 16 de dezembro de 2018
NO ESPELHO
Os pelos brancos do meu cão
o olhar cansado de minha mãe
Um curso, um mestrado, um trabalho
Horário, patrão, empregado
Carro, casa, atraso, enfado
Poucos amigos
e pouca espera
Meu cão e minha mãe:
eu velha
o olhar cansado de minha mãe
Um curso, um mestrado, um trabalho
Horário, patrão, empregado
Carro, casa, atraso, enfado
Poucos amigos
e pouca espera
Meu cão e minha mãe:
eu velha
domingo, 21 de outubro de 2018
ESCANCARANDO AS GENGIVAS
Estapearam Lima Barreto
Estropiaram Bispo do Rosário
E nos querem a todos
atônitos, afônicos,
apáticos, atávicos,
banguelas, sem sorriso
sempre negação
sempre falta,
sempre não.
Heróis da Pátria?
Que Pátria
Não me reconheço
nessas cores
emoções a flor da pele,
esperando a banda passar
Não me reconheço
a mim
a você
a eles
Quem são?
Quem somos?
Não reconheço,
Não encontro,
não sei,
não sei, não sei,
não sei
Ou sei?
Sei do ontem
e do amanhã
O hoje
Quem sabe?
Um homem
encarcerado
Lima Barreto
Bispo do Rosário
A razão
tão clara
escondida
atrás
das grades
Um voz
Não
Uma só
Não
Para calar
É preciso
mil
cálices
porque
o vinho
sempre
entorna
E escorre
pelo
chão
Estropiaram Bispo do Rosário
E nos querem a todos
atônitos, afônicos,
apáticos, atávicos,
banguelas, sem sorriso
sempre negação
sempre falta,
sempre não.
Heróis da Pátria?
Que Pátria
Não me reconheço
nessas cores
emoções a flor da pele,
esperando a banda passar
Não me reconheço
a mim
a você
a eles
Quem são?
Quem somos?
Não reconheço,
Não encontro,
não sei,
não sei, não sei,
não sei
Ou sei?
Sei do ontem
e do amanhã
O hoje
Quem sabe?
Um homem
encarcerado
Lima Barreto
Bispo do Rosário
A razão
tão clara
escondida
atrás
das grades
Um voz
Não
Uma só
Não
Para calar
É preciso
mil
cálices
porque
o vinho
sempre
entorna
E escorre
pelo
chão
quinta-feira, 26 de abril de 2018
DISTRAÍDOS NÃO VENCEREMOS
Agora não basta buscar
nos livros de história
É preciso viver
em carne viva
a palavra
silenciada
o ato
amordaçado
o amanhã
que não chega
Há muros
por todo lado
erguidos
com cuspe
saliva
e arroto
Esvaída a força
a boca grita
Não há som
O vácuo
suga
a língua
que rola pela
escadaria
descendente
destruída
esbaforida
desmilinguida
Há um elevador
inexistente
que a ninguém
é dado usar
Parar
Paralisar
Desconstruir
Despossuir
No início era o verbo
E agora é o ato
Falso
Cadafalso
De um tempo
Não distraído
nos livros de história
É preciso viver
em carne viva
a palavra
silenciada
o ato
amordaçado
o amanhã
que não chega
Há muros
por todo lado
erguidos
com cuspe
saliva
e arroto
Esvaída a força
a boca grita
Não há som
O vácuo
suga
a língua
que rola pela
escadaria
descendente
destruída
esbaforida
desmilinguida
Há um elevador
inexistente
que a ninguém
é dado usar
Parar
Paralisar
Desconstruir
Despossuir
No início era o verbo
E agora é o ato
Falso
Cadafalso
De um tempo
Não distraído
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