segunda-feira, 11 de setembro de 2023

A HORA E O TEMPO

       Para onde foram meus anos que esta mulher leva consigo? Deitada, imóvel, fronte leve e olhar enigmático, pergunto a ela que não me ouve sobre um quarto com brinquedos, a primeira palavra, o primeiro medo e o primeiro abraço. Observo detidamente essas mãos pálidas e percorro seus sulcos de conhecimento inalcançável, tentando escutar o som de um sangue em ritmo constante que me indique o caminho por onde minha vida deve percorrer quando levantar o olhar. O silêncio que vem dessa atenção concentrada é entrecortado pelo ressonar de um ar distante e forte que nos rodeia e faz gotejar a mim, não a ela. Plácida, seu corpo me traz sons de festas longínquas traduzidas em expectativas de luzes e gostos dulcíssimos de amanhã. Se de seus lábios a voz altissonante não prosperou, a altivez do corpo retilíneo comunicava indagações não definidas de por quês. Sempre estiveram ali, as perguntas. Só me pergunto se eram delas ou minhas, que incrustava em seu corpo meus anseios mais recônditos, de um tempo imutável. De seus cabelos recebia os reflexos de uma consciência impenetrável. Em vão tentava imbricar-me neles na busca de colher pensamentos, ainda que monólogos inauditos. Quantas e quantas vezes penetrei, de forma sorrateira e silenciosa, na noite atemporal de seu sono, na esperança de construir novas pontes que me permitissem chegar até seu passado, seu futuro ou seu presente. Sem guia, sem mapa, sem precedentes, tateei vagamente esse universo tão familiar e que há anos me retém em fios de ouro bordando tecidos de lembranças sem fim. Uma urdidura complicada e cheia de pontas me conduz a caminhos que conheço e não reconheço. Sei que nesse traçado minha vida foi disposta e nenhum fio pode desmanchar-se sob o risco de enviar-me a mim a um perpétuo degredo. Aferro-me a detectar a primeira bordadura, mas não tenho êxito. Creio que só ela detém esse poder sobre meu encantamento, fazendo-me refém de seu tempo e de suas vontades, ainda que não expressas. Poderosa, essa mulher me retém em um mundo só nosso. E o dia vai declinando, a hora tantas vezes anunciada e prorrogada encontra seu espaço e se insinua entre nós. Não me espanto. Não há alternativa e vamos nos dizendo adeus. Ou até logo. Não há outro caminho, não há outro momento. Aceito. É ela, e não é. Sou eu, e não serei mais. Fecho os olhos e sei, e sinto, e escuto. Sons de crianças brincando.

domingo, 17 de novembro de 2019

DESCONCERTO

Eu e meus
desconcertos

Desassossegos
de tantas
Pessoas

Uma lassidão
sempre a espera
de amanhã





ENCAIXOTADA

Ontem quiseram prender-me
Mas eu não cabia
na caixa

Então, intrigados, iniciaram
um conciliábulo, me medindo,
me inspecionando, me revirando
dos pés à cabeça

- É a orelha que está sobrando
e não cabe na caixa.
Afirma o douto senhor
- Não, é o dedo mediano,
comprido demais, desproporcional.
Replica o insigne de
anel no dedo.
- Pois eu digo que não é nessa
parte o problema:
é a cabeça, grande demais,
e não adianta cortar o cabelo,
continua em excesso.
(acrescenta o terceiro).

Olhos e olhos, já um tanto
irritados, me lançavam
chispas de exasperação:
Por que não cabe na caixa?

Por que não cabe na caixa?
E nos acaba esse problema?
Era a pergunta unânime
o desejo unânime.

E eu ali, sem caber.
Ora era o dedo, ora o nariz,
era o pé, era a cabeça,
até o olho (cílios enormes!)
era culpado de um conjunto
que não cabe na caixa.

E de um canto se levanta
um deles, até então calado:
- cortem-lhe as asas!
Facilmente caberá
na caixa.

Mas a cada corte que
me faziam, asas nasciam
em outra parte, dominando
meu corpo.

E a caixa
sempre inexata,
ali, ao lado, 
ameaçadora,
com suas paredes,
seus encaixes,
estanque objeto
feito por mãos
humanas
sem olhos
sem nome
sem corpo

Como alguém pode
ousar existir
sem caber
na caixa?

Era o que se sussurrava,
se discutia,
e alguns, mais exaltados,
gritavam exasperados.

Primeiro tentaram
colocando a perna direita,
em seguida o braço esquerdo,
não erguido, mas caído,
atrás das costas.
Depois era preciso ajoelhar,
cabeça caída para frente,
pés e mãos unidos, em
uma mesma direção.
De outra feita que
eu entrasse de ré,
agora sim (diziam)
a caixa servirá
perfeitamente.
E sempre havia algo
em mim que sobrava,
ressaltava, cobrava
espaço exterior,
e a caixa
não fechava,
não servia.

Não me largam, não
me esquecem,
se revezam
dia a dia
na atenção de garantir
uma caixa
para cada um
A que me destinaram
carregam
para que me
acompanhe
a cada passo
que dou.

Não posso dizer
que seja feia,
a caixa,
não posso dizer
que não é confortável,
a caixa,
só posso dizer que
não me cabe,
a caixa
que construíram
para mim.

Exasperados, me gritam:
Como não cabe?!
Como não cabe?!
Mas você não estava junto
quando começaram a construir
a caixa?
Não foi você quem
trouxe essa tábua
que cobre um dos lados
da caixa?
Não foi você que
misturou as tintas
que enfeitam
e recobrem
essa caixa
totalmente personalizada
em sua base geral?

Nada disso posso negar
Como não posso negar
a evidência de que
não caibo
na caixa

Essa caixa
feita a tantas mãos...

AUSÊNCIA

          Quando as minhas memórias e as memórias de mim não existirem mais, ainda restará um tempo, um sol sobre a terra, e esse ar imóvel que as vezes sacoleja algum som nas árvores, nas pequenas rosas do vento, nos mistérios e no nada do mundo que nos rodeia. E eu acredito que será assim, um dia assim, como hoje, que será o amanhã de todos os meus amanhãs, de todos os amanhãs. Porque quando também não existirem mais os amanhãs, o tempo será outro, e outro ar imóvel de eternidade irá abraçar o mundo que nos consome. Mas hoje é esse tempo cíclico, linear e imutável que me inunda, com seu sol acalentador de um verão estático. Os sons e os coloridos, tão reais quanto incorpóreos, traduzem sensações indizíveis e eternas. Porque estavam aí, desde sempre. Infantil porque sempre com gosto de um ontem, esperança de um porvir e certeza de um nada.
          Os turbilhões podem trazer inundações, a visão pode se tornar esmaecida pela fadiga, o tempo pode passar contado em cronômetros, as mãos podem se fechar pela ausência de respiração leve.
           Mas no fim, esse será o destino.











domingo, 16 de dezembro de 2018

NO ESPELHO

Os pelos brancos do meu cão
o olhar cansado de minha mãe

Um curso, um mestrado, um trabalho
Horário, patrão, empregado
Carro, casa, atraso, enfado

Poucos amigos
e pouca espera

Meu cão e minha mãe:
eu velha






domingo, 21 de outubro de 2018

ESCANCARANDO AS GENGIVAS

Estapearam Lima Barreto
Estropiaram Bispo do Rosário

E nos querem a todos
atônitos, afônicos,
apáticos, atávicos,
banguelas, sem sorriso
sempre negação
sempre falta,
sempre não.

Heróis da Pátria?
Que Pátria
Não me reconheço
nessas cores
emoções a flor da pele,
esperando a banda passar

Não me reconheço
a mim
a você
a eles

Quem são?
Quem somos?

Não reconheço,
Não encontro,
não sei,
não sei, não sei,
não sei
Ou sei?

Sei do ontem
e do amanhã
O hoje
Quem sabe?

Um homem
              encarcerado
Lima Barreto
Bispo do Rosário

A razão
tão clara
escondida
        atrás
        das grades

Um voz
            Não
Uma só
            Não
Para calar
É preciso
               mil
                    cálices
porque
           o vinho
     sempre
entorna
         
E escorre
              pelo
                    chão

quinta-feira, 26 de abril de 2018

DISTRAÍDOS NÃO VENCEREMOS

Agora não basta buscar
nos livros de história

É preciso viver
em carne viva
a palavra
         silenciada
o ato
         amordaçado
o amanhã
        que não chega

Há muros
por todo lado
erguidos
    com cuspe
               saliva
               e arroto

Esvaída a força
a boca grita
Não há som

O vácuo
             suga
a língua

que rola pela
  escadaria
     descendente
       destruída
          esbaforida     
               desmilinguida
                   
Há um elevador
inexistente
que a ninguém
é dado usar

Parar
Paralisar
Desconstruir
Despossuir

No início era o verbo
E agora é o ato

Falso
Cadafalso
De um tempo
Não distraído