domingo, 17 de novembro de 2019

DESCONCERTO

Eu e meus
desconcertos

Desassossegos
de tantas
Pessoas

Uma lassidão
sempre a espera
de amanhã





ENCAIXOTADA

Ontem quiseram prender-me
Mas eu não cabia
na caixa

Então, intrigados, iniciaram
um conciliábulo, me medindo,
me inspecionando, me revirando
dos pés à cabeça

- É a orelha que está sobrando
e não cabe na caixa.
Afirma o douto senhor
- Não, é o dedo mediano,
comprido demais, desproporcional.
Replica o insigne de
anel no dedo.
- Pois eu digo que não é nessa
parte o problema:
é a cabeça, grande demais,
e não adianta cortar o cabelo,
continua em excesso.
(acrescenta o terceiro).

Olhos e olhos, já um tanto
irritados, me lançavam
chispas de exasperação:
Por que não cabe na caixa?

Por que não cabe na caixa?
E nos acaba esse problema?
Era a pergunta unânime
o desejo unânime.

E eu ali, sem caber.
Ora era o dedo, ora o nariz,
era o pé, era a cabeça,
até o olho (cílios enormes!)
era culpado de um conjunto
que não cabe na caixa.

E de um canto se levanta
um deles, até então calado:
- cortem-lhe as asas!
Facilmente caberá
na caixa.

Mas a cada corte que
me faziam, asas nasciam
em outra parte, dominando
meu corpo.

E a caixa
sempre inexata,
ali, ao lado, 
ameaçadora,
com suas paredes,
seus encaixes,
estanque objeto
feito por mãos
humanas
sem olhos
sem nome
sem corpo

Como alguém pode
ousar existir
sem caber
na caixa?

Era o que se sussurrava,
se discutia,
e alguns, mais exaltados,
gritavam exasperados.

Primeiro tentaram
colocando a perna direita,
em seguida o braço esquerdo,
não erguido, mas caído,
atrás das costas.
Depois era preciso ajoelhar,
cabeça caída para frente,
pés e mãos unidos, em
uma mesma direção.
De outra feita que
eu entrasse de ré,
agora sim (diziam)
a caixa servirá
perfeitamente.
E sempre havia algo
em mim que sobrava,
ressaltava, cobrava
espaço exterior,
e a caixa
não fechava,
não servia.

Não me largam, não
me esquecem,
se revezam
dia a dia
na atenção de garantir
uma caixa
para cada um
A que me destinaram
carregam
para que me
acompanhe
a cada passo
que dou.

Não posso dizer
que seja feia,
a caixa,
não posso dizer
que não é confortável,
a caixa,
só posso dizer que
não me cabe,
a caixa
que construíram
para mim.

Exasperados, me gritam:
Como não cabe?!
Como não cabe?!
Mas você não estava junto
quando começaram a construir
a caixa?
Não foi você quem
trouxe essa tábua
que cobre um dos lados
da caixa?
Não foi você que
misturou as tintas
que enfeitam
e recobrem
essa caixa
totalmente personalizada
em sua base geral?

Nada disso posso negar
Como não posso negar
a evidência de que
não caibo
na caixa

Essa caixa
feita a tantas mãos...

AUSÊNCIA

          Quando as minhas memórias e as memórias de mim não existirem mais, ainda restará um tempo, um sol sobre a terra, e esse ar imóvel que as vezes sacoleja algum som nas árvores, nas pequenas rosas do vento, nos mistérios e no nada do mundo que nos rodeia. E eu acredito que será assim, um dia assim, como hoje, que será o amanhã de todos os meus amanhãs, de todos os amanhãs. Porque quando também não existirem mais os amanhãs, o tempo será outro, e outro ar imóvel de eternidade irá abraçar o mundo que nos consome. Mas hoje é esse tempo cíclico, linear e imutável que me inunda, com seu sol acalentador de um verão estático. Os sons e os coloridos, tão reais quanto incorpóreos, traduzem sensações indizíveis e eternas. Porque estavam aí, desde sempre. Infantil porque sempre com gosto de um ontem, esperança de um porvir e certeza de um nada.
          Os turbilhões podem trazer inundações, a visão pode se tornar esmaecida pela fadiga, o tempo pode passar contado em cronômetros, as mãos podem se fechar pela ausência de respiração leve.
           Mas no fim, esse será o destino.