domingo, 21 de outubro de 2018

ESCANCARANDO AS GENGIVAS

Estapearam Lima Barreto
Estropiaram Bispo do Rosário

E nos querem a todos
atônitos, afônicos,
apáticos, atávicos,
banguelas, sem sorriso
sempre negação
sempre falta,
sempre não.

Heróis da Pátria?
Que Pátria
Não me reconheço
nessas cores
emoções a flor da pele,
esperando a banda passar

Não me reconheço
a mim
a você
a eles

Quem são?
Quem somos?

Não reconheço,
Não encontro,
não sei,
não sei, não sei,
não sei
Ou sei?

Sei do ontem
e do amanhã
O hoje
Quem sabe?

Um homem
              encarcerado
Lima Barreto
Bispo do Rosário

A razão
tão clara
escondida
        atrás
        das grades

Um voz
            Não
Uma só
            Não
Para calar
É preciso
               mil
                    cálices
porque
           o vinho
     sempre
entorna
         
E escorre
              pelo
                    chão

quinta-feira, 26 de abril de 2018

DISTRAÍDOS NÃO VENCEREMOS

Agora não basta buscar
nos livros de história

É preciso viver
em carne viva
a palavra
         silenciada
o ato
         amordaçado
o amanhã
        que não chega

Há muros
por todo lado
erguidos
    com cuspe
               saliva
               e arroto

Esvaída a força
a boca grita
Não há som

O vácuo
             suga
a língua

que rola pela
  escadaria
     descendente
       destruída
          esbaforida     
               desmilinguida
                   
Há um elevador
inexistente
que a ninguém
é dado usar

Parar
Paralisar
Desconstruir
Despossuir

No início era o verbo
E agora é o ato

Falso
Cadafalso
De um tempo
Não distraído





terça-feira, 19 de dezembro de 2017

DELÍRIO

Não pense que estou bêbada, meu bem,
Também não é pretinho ou branquinho,
Muito menos chá das cinco
Apenas a embriaguez dessa vida
                                        viciante







sábado, 9 de dezembro de 2017

A BAÍA DE GUANABARA

A Baía de Guanabara 
me lembra o mar Egeu
que eu não conheci,
com sua armada atracada
em conjecturas brumosas.

Ali cavalgam em navegações
celestes marinheiros de Ítaca
em sua busca e retorno
perdidos

Ao longo diviso mares, montanhas,
prados, e por momento me esqueço
dessas poderosas embarcações
que me ameaçam com sua
beleza de ferro

Sonho e luto,
Sou Helena, sou Ulisses,
Sou Penélope e Agamenon.

Todos esses gregos humanos
e semi-humanos que habitam em nós
me demonizam e me endeusam

Lanço velas ao mar,
mesmo em tempos de calmaria,
mas nada se compara
às embarcações do mar Egeu
da Baía de Guanabara


Foto: Paula Borges Bastos












sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

DIA DE PRAIA

Há cinco anos viviam juntos.
Aquela manhã foram à praia - o sol estava forte.
Esqueceram de levar os óculos escuros e o filtro solar
E quando se olharam se estranharam tanto, e tanto,
Que o amor acabou.

No fim do dia sobraram dois corpos vermelhos
                                                             e ardidos de sol








quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

ELES NÃO PARAM DE JOGAR CADÁVERES EM NOSSA PORTA

Eu também não queria
     esse cadáver na minha
     porta, Affonso

Mas

Ali, atrás daquela árvore,
     uma pessoa com enxada na mão
     morreu com dois tiros certeiros
Eu vi.
     ia colher os frutos de sua semeadura
     lutava contra as ervas daninhas
     perdeu o combate
     Caiu
Eu vi.

No fim da longa avenida
    que faz esquina com a rua
    da minha casa
Um corpo.
    Tão igual e tão diferente
                               do meu
    Caído
    Abandonado
Marcas por todo lado
Ali, do meu lado.
Eu vi.

Eu vejo, Affonso

Eu também não queria
Esse cadáver
                     na minha porta

Mas estão todos lá.
Acumulando cadáveres
Em minha porta, minha mente.

Tão difícil esse tempo que nos coube

Não se pode estar distraído um minuto
Que já nos retornam
Eles
       Com seus cadáveres

O tempo todo a nos
         reclamar
A nos impedir
               de respirar
                        Ar puro

Ai, Affonso!
Eu também queria
Passear com você
          Por Colônia, 
                   que conheci,
          Por Alhambra,
                   que quero conhecer.

Mas eles não param
De atirar cadáveres
         a minha porta

Estão todos aí
Amontoados
           Sem rosto
           Sem voz

Quase não reconheço
Os sonhos
            de cada um


Quase não reconheço
Os sonhos
              Esvaídos
Que sugo
Entre os escombros
             dos cadáveres
acumulados a minha porta

Enquanto eles riem
                   sem 
                   pesadelo





quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

DEDICATÓRIA

Aos
      grandes sábios do poder,
      inteligentíssimos senhores do comando,
      ridículos, decrépitos e podres
                      charlatães do conhecimento,

                                              eu dedico
                                              essa poesia

                                                    sem sal
                                                    sem sol
                                                    sem sonho