quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

ELES NÃO PARAM DE JOGAR CADÁVERES EM NOSSA PORTA

Eu também não queria
     esse cadáver na minha
     porta, Affonso

Mas

Ali, atrás daquela árvore,
     uma pessoa com enxada na mão
     morreu com dois tiros certeiros
Eu vi.
     ia colher os frutos de sua semeadura
     lutava contra as ervas daninhas
     perdeu o combate
     Caiu
Eu vi.

No fim da longa avenida
    que faz esquina com a rua
    da minha casa
Um corpo.
    Tão igual e tão diferente
                               do meu
    Caído
    Abandonado
Marcas por todo lado
Ali, do meu lado.
Eu vi.

Eu vejo, Affonso

Eu também não queria
Esse cadáver
                     na minha porta

Mas estão todos lá.
Acumulando cadáveres
Em minha porta, minha mente.

Tão difícil esse tempo que nos coube

Não se pode estar distraído um minuto
Que já nos retornam
Eles
       Com seus cadáveres

O tempo todo a nos
         reclamar
A nos impedir
               de respirar
                        Ar puro

Ai, Affonso!
Eu também queria
Passear com você
          Por Colônia, 
                   que conheci,
          Por Alhambra,
                   que quero conhecer.

Mas eles não param
De atirar cadáveres
         a minha porta

Estão todos aí
Amontoados
           Sem rosto
           Sem voz

Quase não reconheço
Os sonhos
            de cada um


Quase não reconheço
Os sonhos
              Esvaídos
Que sugo
Entre os escombros
             dos cadáveres
acumulados a minha porta

Enquanto eles riem
                   sem 
                   pesadelo





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