Eu também não queria
esse cadáver na minha
porta, Affonso
Mas
Ali, atrás daquela árvore,
uma pessoa com enxada na mão
morreu com dois tiros certeiros
Eu vi.
ia colher os frutos de sua semeadura
lutava contra as ervas daninhas
perdeu o combate
Caiu
Eu vi.
No fim da longa avenida
que faz esquina com a rua
da minha casa
Um corpo.
Tão igual e tão diferente
do meu
Caído
Abandonado
Marcas por todo lado
Ali, do meu lado.
Eu vi.
Eu vejo, Affonso
Eu também não queria
Esse cadáver
na minha porta
Mas estão todos lá.
Acumulando cadáveres
Em minha porta, minha mente.
Tão difícil esse tempo que nos coube
Não se pode estar distraído um minuto
Que já nos retornam
Eles
Com seus cadáveres
O tempo todo a nos
reclamar
A nos impedir
de respirar
Ar puro
Ai, Affonso!
Eu também queria
Passear com você
Por Colônia,
que conheci,
Por Alhambra,
que quero conhecer.
Mas eles não param
De atirar cadáveres
a minha porta
Estão todos aí
Amontoados
Sem rosto
Sem voz
Quase não reconheço
Os sonhos
de cada um
Quase não reconheço
Os sonhos
Esvaídos
Que sugo
Entre os escombros
dos cadáveres
acumulados a minha porta
Enquanto eles riem
sem
pesadelo
Que belo poema, Paula. Ele contém muita sensibilidade e reflexão.
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